O cenário econômico brasileiro tem ganhado destaque nas mídias nesses últimos tempos, principalmente após a calorosa e polêmica disputa eleitoral para a Presidência da República no ano passado. Termos como PIB, inflação, câmbio e taxa Selic, que, até então, eram temas típicos de rodas de Administradores e Economistas, ganharam novos adeptos que, agora, discutem com muita propriedade esse assunto, a mesma propriedade com que discutem medicina e planos táticos da seleção brasileira de futebol.

Nas rodas de bar, durante a corrida do táxi e em pontos de ônibus, é fácil encontrar pessoas comentando sobre tais temas. Mas também não poderia ser diferente, todos passamos a perceber que o mês ficou cumprido demais para o nosso ordenado. Ir ao supermercado, ao posto de combustível ou a feira tornou-se tarefa de muita incerteza, não se sabe se a grana do bolso será suficiente para a conta – passa uma parte no crédito? –. já se vê até estabelecimentos oferecendo parcelamentos no cartão para as despesas correntes do mês, o que é uma baita armadilha, pois a conta parcelada também carece de ser paga.

Diante desse cenário, tem se observado um movimento, ainda tímido, de gente procurando conhecer mais sobreinvestimentos, sobre orçamento doméstico e finanças pessoais e isso é positivo. Se por um lado o que desperta a população para o aprendizado é uma situação negativa (situação econômica brasileira), por outro, o legado que isso pode deixar tende a ser positivo, se soubermos tirar proveito da situação.

Conhecer educação financeira é hoje uma necessidade tão relevante que deveria ser disciplina obrigatória nas redes de ensino. Está diretamente ligada à realização plena de uma pessoa, e isso independe da faixa de renda a que a pessoa está situada; isso deveria ser a regra para todas as faixas de renda da população. A cultura do estímulo ao consumo que se formou no país nos últimos tempos (especificamente no último governo) traz consigo um mal crônico, fruto da incapacidade de se sustentar esse consumo da forma como é posto.

O consumo é importante para que qualquer país capitalista sobreviva, no entanto, esse consumo deve estar lastreado em bases suficientemente capazes de se sustentar e não como é visto atualmente, com base no endividamento da população. Estimular o consumo por meio do crédito é como jogar a poeira para baixo do tapete; é uma solução aspirina, ameniza, mas não resolve o problema. Hoje, a população que desfruta de hábitos de consumo até então nunca vividos é a mesma que faz malabarismos com seu salário para poder fazer face a todas suas despesas correntes e aos financiamentos de carros, eletrodomésticos, casas, etc., contraídos por meio da política populista-expansionista do governo.

A situação do país, então, se divide em dois grandes grupos: o dos que possuem uma boa base de conhecimentos financeiros (ou pelo menos suficiente para manter-se afastados das tentações ao endividamento) e, portanto, com uma liquidez financeira até razoável, mesmo em momentos de maior delicadeza na situação econômica, e o grupo dos que ascenderam socialmente pelos bens que possuem e não necessariamente pela elevação da renda, com carro novo, eletroeletrônicos de última geração e tudo aquilo que o crediário facilitado a juros extrapolados pode proporcionar.

O primeiro grupo que já adotava uma postura mais conservadora com relação aos gastos, mesmo nas épocas de crédito farto, tira mais ainda o pé dos gastos em momentos como esse. O segundo grupo, em razão do alto endividamento assumido lá atrás, se vê obrigado a reduzir seu ritmo de consumo, pois já não há folga no orçamento para bancar as novas prestações. Com isso, o setor de serviços e varejo passa a ter menor demanda, ficam com seus estoques encalhados e a indústria, consequentemente, deve reduzir seu ritmo de produção, por não ter para onde escoar seu produto.

O reflexo disso é a indústria reduzindo turnos de trabalho, isso quer dizer demissões, e, com mais gente desempregada, menor a circulação de dinheiro no mercado, consequentemente, menor consumo no varejo, que já se vê estocado e tem-se aí a crise.

Por isso, sou partidário de uma legislação que determine que as instituições financeiras que tanto se aproveitam das elevadas taxas de juros promovam palestras que induzam ao consumo consciente, que propaguem o conhecimento financeiro de modo a se ter uma população com consumo sustentável e não canibalesco como temos hoje. Mas, enquanto isso não acontece, vamos tentar substituir a despesa com juros de cartão e cheque especial por livros e cursos de educação financeira. Somente assim construiremos uma sociedade verdadeiramente rica.