Dados do estudo O Observador noticiado nos últimos dias mostram que a pirâmide da classificação econômica brasileira mudou: há um aumento de 62% da classe C, e a redução de 49% das classes DE entre 2005 e 2010.

Não surpreende, portanto, que a taxa de inadimplência tenha subido constantemente. Vários indicadores socioeconômicos confirmarão que as rápidas e importantes mudanças que ocorreram nos últimos seis anos no país corroboram para um aumento de renda em todas as classes. Mas a falta de educação financeira tem levado boa parte da população a perder a oportunidade de traçar um futuro mais equilibrado e seguro, com autonomia financeira, ainda mais quando indicadores do Banco Mundial mostram que o Brasil está envelhecendo muito mais rápido do que se imagina e que as consequências desse processo serão profundas.

Evidência de que o cenário preocupa e de que é necessário preparar todas as gerações para o futuro, é o fato de recentemente o Governo Federal ter estabelecido a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Seu objetivo é contribuir para um consumo mais responsável da população, assegurar a conscientização dos riscos assumidos pelos consumidores nos processos de endividamento, e reforçar a estabilidade e confiança no Sistema Financeiro Nacional. Estão previstas ações destinadas ao público adulto e outras especificamente para escolas do ensino básico. Em paralelo está em trâmite no Senado o Projeto de Lei 171/09, que estabelece a inserção da Educação Financeira no currículo escolar da rede pública de ensino. Ambas medidas plausíveis, já que este tema não é um modismo e, sim, um novo desafio global para governos, pais e escolas.

Estudo da Fundação Instituto de Administração (FIA) mostra que o processo de educação financeira está se desenvolvendo de forma mais intensa nos Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Austrália, Nova Zelândia e Coréia do Sul, e que no Brasil, assim como em outros países emergentes, está apenas engatinhando.

Considerando que os pais têm papel fundamental no significado que os filhos atribuem ao dinheiro, e que boa parte da população adulta, em especial aquela pertencente às classes sociais em ascensão, não teve educação financeira e, portanto, tem dificuldade de educar os filhos financeiramente; caberá à escola, mais uma vez, cumprir uma lacuna fundamental para o progresso do país.

Já que as escolas são cada vez mais demandadas a formar alunos-cidadãos, autônomos, com visão crítica e capazes de idealizar e realizar projetos individuais e coletivos, a educação financeira pode representar um importante diferencial educativo e econômico, no caso das particulares. Além disso, há caminhos para que famílias e escolas caminhem juntas nesse aprendizado coletivo e benéfico a todos.

Crianças são muito observadoras e cedo começam a perceber que o dinheiro tem uma força. Frequentemente elas vêem os adultos entregarem dinheiro, cartões, cheques em vários locais em troca de mercadorias. Ou seja, observam que troca-se dinheiro por coisas que se quer ter. Ao mesmo tempo crianças e jovens estão expostos às mensagens publicitárias que estimulam o desejo de ter. São duas forças importantes que movimentam a sociedade.

O antídoto para os possíveis efeitos nocivos do estímulo ao consumo é mostrar que é preciso ter objetivos, fazer escolhas e que nada é mágico, porém, tudo é possível, desde que o dinheiro seja usado com foco e sabedoria.

 

Tanto para as famílias quanto para as escolas é fundamental buscar uma metodologia que vá além do enfoque estritamente matemático, geralmente dado ao assunto, para uma abordagem comportamental, que trabalhe, simultaneamente, capacidades cognitivas, afetivas e sociais.

É preciso desenvolver quatro competências fundamentais para combater o analfabetismo financeiro: Saber Diagnosticar, Saber Sonhar, Saber Orçar e Saber Poupar. Essas competências podem ser desenvolvidas em qualquer faixa etária, envolvendo escola, família e comunidade. Como elas são, ao mesmo tempo, motivação e técnica para reavaliar a relação que se tem com o dinheiro, permitem que as pessoas, por mérito próprio, encontrem os caminhos para a independência financeira, sem “fórmulas mágicas”, substituindo velhos hábitos e comportamentos por uma nova atitude, mais sustentável, que conduza ao equilíbrio financeiro e ao bem-estar individual e social.