A mesada está acabando bem mais cedo e hoje é preciso levar mais dinheiro para pagar o cinema e o lanche na escola e no shopping.


É assim que as crianças e adolescentes, que nasceram bem depois do Plano Real, que conseguiu estabilizar a economia em 1994, estão sendo apresentados à alta do custo de vida, conhecida pelos mais velhos como a temida inflação. Eles já estão aprendendo a lidar com os aumentos pesquisando os preços e gastando menos.

“Antes, eu levava R$ 20 ou R$ 30 para o cinema e o lanche. Hoje, preciso levar R$ 40 ou R$ 50. Meus pais estipulam um valor e não posso sair deles”, conta Laís Adorno, de 14 anos. Com os aumentos de preços, muitos pais deixaram de dar mesada. A maioria das crianças ganha um valor semanal e pede algum extra aos pais quando vão sair.

Para Beatriz Lemes, de 13 anos, lanches e passeios estão custando quase o dobro que há um ano. “Quando eu ía ao shopping, levava R$ 30 e, hoje, tenho de levar R$ 50. Meus pais reclamam, mas sabem que tudo está mais caro”, justifica. Maria Clara Gomes, de 12 anos, recebe um valor fixo, que ultimamente precisa ser completado pela mãe. “Ela reclama que estou sempre pedindo mais, mas a culpa não é minha. É que tudo subiu”, justifica.

DESCOBERTA

Victória Mendes, de 14 anos, tem de dividir o dinheiro dado pelos pais com a irmã de 12 anos. Vaidosa, ela reclama que está mais difícil comprar roupas e produtos de beleza. “Antes, eu comprava duas peças com R$ 50. Hoje, não consigo comprar nem uma”, reclama. Para driblar essa inflação, Victória aprendeu a pechinchar e a escolher lojas com preços mais baixos. “Tenho de optar entre uma calça ou uma blusa e até abrir mão de um lanche para comprar mais”, conta.

Apesar de pertencerem a uma geração que desconhecia a inflação, hoje, Laís, Beatriz, Maria Clara e Victória já estão aprendendo a lidar com a alta no custo de vida. Elas concordam, por exemplo, que não é mais possível levar um valor exato para pagar um lanche. “Quando você chega lá, muitas vezes descobre que o preço não é mais o mesmo e fica na mão”, argumentam.

O que muitas crianças não sabem é que essa inflação de hoje é resultado de um aumento da demanda, depois do crescimento da economia e da renda dos trabalhadores no Brasil (veja quadro). Apesar da inflação atual nem beirar as taxas absurdas das décadas de 80 e 90, que ultrapassavam os 50% num mês, o índice acumulado em 6% nos últimos 12 meses preocupa.

Mas o problema, segundo o gerente de Pesquisas Sistemáticas e Especiais da Secretária de Gestão e Planejamento de Goiás (Segplan), que pesquisa o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) em Goiânia, Marcelo Eurico de Sousa, é que a inflação sentida pelas crianças e adolescentes é bem maior. Isso porque eles não compram produtos da cesta básica. No entanto, gastam mais com itens de passeios e lanches, que estão subindo bem acima da inflação.

Levantamento feito pela Segplan para O POPULAR mostra que alguns itens subiram mais de 30% este ano, como o cinema. “Como eles gostam muito de passear no shopping, o período de férias sempre sai muito caro para os pais”, frisa Marcelo. Isso porque a inflação destes locais é diferente, pois está muito relacionada à demanda e ao alto custo de manutenção.

PESQUISA

Sara Amorim, de 13 anos, ganha R$ 35 por semana dos pais para seus gastos na escola. Ela conta que, antes, ainda conseguia chegar ao fim do mês com algum dinheiro. Hoje, não sobra nada. A mensalidade da academia que ela frequenta ficou R$ 10 mais cara. “Há dois anos, eu pagava R$ 12 para fazer as unhas. Agora, já está R$ 25”, reclama. Para fazer o dinheiro render, ela conta que aprendeu pesquisar preços antes de comprar.

Daniel Cintra, de 13 anos, costuma sempre lanchar com amigos numa panificadora perto de sua casa. Ele reclama que um salgadinho que custava R$ 3, hoje já é vendido por R$ 4,5. “A Coca-Cola também está mais cara. Antes, pegávamos o troco de balas. Hoje, levo mais dinheiro e não sobra nada”, garante Daniel. Para economizar, Paulo César, de 14 anos, diz que já prefere comer o lanche que a mãe faz em casa.

O doce que o estudante Rodrigo Tosta, de 14 anos, sempre gostou de comer no shopping, custava R$ 2,50. Foi subindo aos poucos até chegar a R$ 6. A mensalidade das aulas de artes marciais passou de R$ 60 para R$ 75. O jeito tem sido pedir mais dinheiro aos pais, que reclamam, mas acabam liberando.

Com apenas 11 anos, Lara Perpétua conta que também aprendeu a pesquisar os preços. Ela lembra que comprava dois pares de sapatos com R$ 100, mas hoje só compra um. “Meu pai acha que estou gastando muito”. Lara também já percebeu que a mãe está comprando menos supérfluos, como guloseimas, porque os preços subiram muito.

PERCEPÇÃO

Para a psicóloga e educadora financeira Dayane Godinho, essas crianças estão conseguindo perceber bem a presença da inflação pelo grande aumento de preços no ciclo de produtos que elas próprias compram. “Elas percebem que a mesada não está mais sendo suficiente”, destaca. Outra forte percepção é obtida ouvindo comentários dos pais sobre os preços e orçamento doméstico.

Se engana quem pensa que eles não têm noção de valor. Aos 11 anos, Jade Helena Plaza de Oliveira diz que gasta muito com roupas, sapatos e perfumes e garante que já sabe identificar uma falsa promoção. “A loja fala que o preço está com desconto, mas eles subiram antes”, reclama.

Fonte://www.opopular.com.br/editorias/economia/crian%C3%A7as-e-jovens-atentos-%C3%A0-infla%C3%A7%C3%A3o-1.402219