É difícil resistir a tanta oferta: crédito facilitado, descontos, promoções, tudo isso com o salário caindo na conta-corrente todo mês. Se quem já está acostumado com esse cenário se endivida com frequência, imagine os adolescentes – meninos e meninas que acabaram de entrar no mercado de trabalho e se vêem no mundo novo do consumo.

 

Esse é o caso do consultor de vendas Julio Cesar de Carvalho, de 20 anos de idade. Aos 16 já começou a se endividar, e aos 18 estava com o nome “negativado” em razão de faturas não honradas das redes C&A e Casas Bahia. O total da pendência: R$ 600. Hoje, com um salário de R$ 1,5 mil, Carvalho busca regularizar sua situação. “Quero comprar um automóvel. A prestação será de aproximadamente R$ 800. Acho que dá”, afirma.

 

A lição das dívidas precoces ajudou David Silvano, de 21 anos, conferente de uma fábrica de laticínios, a aprender com os erros da “juventude”, como gosta de dizer. Ele deve cerca de R$ 1,5 mil – comprou também na Casas Bahia, e não conseguiu pagar porque perdeu o emprego na época, quando tinha 18 anos. “Agora eu anoto tudo o que gasto em um caderno. Sei exatamente para onde vai cada centavo do meu salário de R$ 1,6 mil”, detalha.

 

As histórias de Carvalho e Silvano se repetem entre os jovens no Brasil. Uma pesquisa inédita do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (IEGV/ACSP) demonstra que o desemprego entre os jovens foi o maior motivo da inadimplência – apontado por 39% dos entrevistados. No entanto, a maioria dos pesquisados já estava empregada novamente quando foi realizado o levantamento, em março deste ano. O descontrole de gastos e a queda no nível de renda também são fatores apontados pelos jovens consumidores: 12% e 8%, respectivamente.

 

A sondagem ouviu 830 pessoas – um público formado por consumidores que procuraram informações no Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). Desse total, 8% são jovens, com idade inferior a 20 anos, e que se encontram com carnê em atraso.

 

Perfil

O levantamento revela também que 58% desses jovens são devedores de apenas uma loja, 21% estão com pagamento atrasado em dois locais, e 13% têm débitos com três empresas. Os principais produtos comprados por esse público são roupas e calçados, que respondem por 24% do total, eletroeletrônicos, com 18%, e móveis, 12%.

 

O carnê é a forma mais utilizada para adquirir um bem, registrando 52% da preferência. Em seguida, vêm os cartões de crédito e os de loja (27% cada um) e o cheque (14%).

 

Do total dos pesquisados, 87% têm renda mensal inferior a dois salários mínimos, e quase 70% das dívidas deles não-quitadas estão entre R$ 300 e R$ 1,5 mil. O restante situa-se no patamar entre R$ 500 e R$ 1 mil. Quase metade dos consultados (44%) pretende quitar os débitos. Mas o valor não pode passar dos R$ 100 para 68%, e R$ 200 para outros 16%.

 

“Os baixos valores são explicados pelos salários relativamente menores para os trabalhadores desta faixa de idade. é provável que, por este motivo, 73% dos jovens não se interessaram em renegociar as pendências. Mas 60% dos que procuraram os credores conseguiram resolver a situação”, afirma o superintendente institucional e economista-chefe da ACSP, Marcel Solimeo.

 

Planejamento

Para o educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos, o problema é que os jovens não recebem educação financeira, ao mesmo tempo em que são “bombardeados” pela publicidade e encontram crédito com facilidade. “O garoto sonha em comprar uma moto, por exemplo. E sempre vê a propaganda oferecendo o produto, além de perceber, toda vez que tira extrato no banco, que o saldo registrado já aparece com o limite pré-aprovado. O endividamento é um pulo.”

 

Para não ficar exposto a esse cenário, o jovem consumidor precisa fazer um planejamento financeiro, definir o que quer e saber quanto pode gastar por mês. “Primeiro a pessoa estabelece uma meta. Depois, faz as contas e descobre o quanto tem. Se ele quer comprar um bem de R$ 2 mil, precisa planejar o valor que será poupado mensalmente. Diante disso, os gastos supérfluos serão minimizados, já que o jovem vai optar por ser fiel ao seu próprio plano financeiro. O caminho é tirar do salário a quantia que será poupada todo mês”, afirma o especialista.

 

Para quem já estiver endividado, o melhor é procurar o gerente do banco e negociar. Para Domingos, não é difícil conseguir uma linha com juros mensais de 2,5%. E o mais importante: cancelar o limite. “é uma tentação – aparentemente se livrar da dívida e continuar com o limite. Os gastos vão continuar.”

 

De acordo com Domingos, os pais podem ajudar os filhos a sair do buraco, acompanhando todo o processo. “Se os pais emprestarem recursos, devem cobrar juros, de poupança. E a prioridade é se certificar que o filho cancelou o limite de cheque especial. Não adianta ajudar se não atacar a causa do problema. O pai tem que agir como o educador financeiro.”

 

Aos 20 anos de idade, a recepcionista Caroline Villemberg Iserhard é o exemplo da boa pagadora precoce. Ela começou a trabalhar aos 18 anos como empacotadora em uma loja de sapatos. E garante que nunca ficou no vermelho. Hoje seu salário é de R$ 850. “Eu ainda não tenho nenhuma reserva financeira, mas pretendo começar neste segundo semestre. O importante é que não tenho dívidas”, afirma.

 

Caroline usa o cartão de crédito para qualquer gasto, e assim controla as despesas. “Quando o valor atinge os R$ 300, paro de usar o cartão, senão meu orçamento terá problemas. O plano para 2011 é começar um curso na faculdade.”

 

Fonte: //www.dcomercio.com.br/materia.aspx?id=48255

 

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