O ser humano, pela própria natureza, está sempre insatisfeito, e, na busca pela satisfação, consome bens seguindo os apelos mercadológicos de uma “sociedade do excesso”. À luz da psicanálise, não basta apenas educação financeira

A oneomania, ou o desejo compulsivo de fazer compras, do ponto de vista da psicanálise, deve ser tratada como um sintoma, e não como doença. “É apenas um sintoma gerado da relação que o sujeito tem com os seus objetos”, reforça Leonardo Danziato, psicanalista e professor do programa de pós-graduação em Psicologia, da Universidade de Fortaleza (Unifor).

A relação da pessoa com o consumo e o dinheiro não pode ser analisada apenas sob a ótica o racional. “Nossa relação com o dinheiro é algo subjetivo também e vai muito além da educação financeira”. Em primeiro lugar, o sujeito tem uma economia de gozo, se permite gozar e o que não se permite, daí cometer excesso. Paradoxalmente, vivemos numa sociedade do excesso. É justamente o que acontece”, analisa.

Neste contexto, é preciso lembrar, também, que “existe uma insatisfação da condição do sujeito humano e, dentro dessa lógica mercadológica, pensa que encontrará satisfação ao adquirir um bem. “Mas é um logro porque isso nunca acontece. É ingenuidade a pessoa pensar dessa forma”. O problema do gasto ou consumo excessivo não está localizado apenas numa classe social. “Não se trata de doença numa sociedade que promete o gozo excessivo”.

Assim, é preciso localizar esse sujeito dentro de um contexto socioeconômico no qual há o triunfo do Capitalismo na cultura, as pessoas passam a acreditar na lógica desse discurso no consumo. “Nesse sentido, é muito mais grave do que uma doença e atinge parcela maior da população do que aquelas que estão em grupos de ajuda, a exemplo dos Devedores Anônimos”, esclarece.

Crédito amplo
“O crédito no Brasil, de fato, está muito amplo. Mas o endividamento ainda não está tão alto em comparação com os países desenvolvidos”. A análise é do professor de Administração do Centro Universitário da Fundação Educacional Inaciana (Fei), Wilson Pires e faz uma ressalva ao caso brasileiro. Considera “perigosa” a falta educação financeira.

A regra é básica e até parece conselho da vovó, mas o professor endossa. Não se deve gastar além do que se ganha, aconselhando não ultrapassar 30% da renda mensal com crédito. O cuidado é para que a pessoa não se endivide e para isso é didático. “Basta consumir e gastar menos do que se ganha”. Outra regra: o cartão de crédito só deve ser usado para um caso emergencial, como compra de remédio ou uma internação.

Infância

A educação para o consumo deve começar ainda na infância. “É ideal que a criança compreenda sobre o dinheiro e aprenda a fazer uso dele. Para isso, a escola tem um papel fundamental, assim como os pais. “Quanto mais nova a criança, os pais devem dar menos dinheiro”, orienta o professor que considera a mesada uma boa forma de educar.

No caso do adolescente, se ele já trabalha, pode possuir o cartão de crédito. “O problema é quando ele não trabalha”, observa. Mas se a educação começa na infância, certamente, não haverá transtornos. Recomenda o uso de apenas um cartão de crédito.

Sonhos e gastos

Traçar um orçamento financeiro, mas sem perder a capacidade de sonhar. Esta é a recomendação fundamental, mesmo para quem está endividado, orienta o educador e terapeuta financeiro, Reinaldo Domingos, autor do livro “Terapia Financeira”. O primeiro passo para quem chegou ao fundo do poço, é “fazer um diagnóstico financeiro, a fim de verificar para onde vai cada centavo do orçamento”. De nada adianta procurar outro credor, recomenda fortemente o especialista.

A metodologia utilizada, que incorpora não apenas poupar, mas também fazer projetos futuros, consiste em quatro passos. O primeiro, o diagnóstico, isto é, colocar no papel todos os gastos, discriminados um a um. Em seguida, vem o sonho, porque “todos nós temos”, justifica. Para quem está endividado, sair da dívida é o principal sonho. O próximo passo é fazer o orçamento financeiro. No momento do endividamento, é necessário “reduzir gastos”, reconhecendo que deve, mas que “vai pagar quando e como puder”. É necessário assumir uma nova consciência diante do dinheiro, evitando compras por impulso e gastos desnecessários”.

Explosão de crédito
A passagem da sociedade de produtores para a de consumidores tem um preço: a oferta de crédito indiscriminada, uma vez que é preciso escoar o excedente. A introdução dos cartões de crédito, lançados há 30 anos no mercado, foi um sinal do que viria a seguir. A realização imediata do sonho, “as pessoas não precisam mais adiar os seus desejos”, constata o astuto sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, ao abordar o assunto no livro “Vida a Crédito”.

Nele, o autor defende a tese de que a oferta de crédito indiscriminada – a exemplo do que ocorre no Brasil – está sendo esboçada numa geração de endividados. Enquanto o Brasil ensaia os primeiros passos da dança consumista, nos países desenvolvidos, as torneiras foram fechadas. E é justamente apoiado nesse consumo – que no Brasil ainda é incipiente, daí o incentivo ao crédito – que o País consegue manter acesa a sua economia.

Segundo Bauman, como mais uma forma de sobrevida do Capitalismo, o crédito surge para dar uma injeção de força àqueles países que ainda não alcançaram índices de desenvolvimento.

A varinha de condão que serve de guia aos novos consumidores, principalmente da classe C, é o cartão de crédito.

Surgido na década de 1920, nos Estados Unidos, apenas para clientes fieis, cujos donos dos estabelecimentos percebiam que pagavam as contas em dia, começa a ganhar adeptos nos anos 1950, popularizando-se nos anos 1980/90, no Brasil.

DEVEDORES ANÔNIMOS
Trabalho com troca de experiências

Eles se culpam, alguns chegam a quebrar os cartões de crédito, enquanto outros não escondem a vergonha de ter chegado ao fundo do poço. Na verdade, não se trata de falta de responsabilidade com os compromissos ou de não saber se desvencilhar da sedução consumista.

Segundo os ensinamentos dos grupos de Devedores Anônimos (DAs), irmandade criada em 1967, nos Estados Unidos, essas pessoas padecem de um mal: a oneomania, ou desejo mórbido de fazer compras. No entanto, há controversas quanto a tachar de doença ou não a oneomania. Para alguns estudiosos, a exemplo do psicanalista Leonardo Danziato, não pode ser tratada como uma doença. Diferente do que defendem os integrantes dos grupos de DA, que seguem a filosofia doa Alcoólicos Anônimos (AA) e de outros distúrbios semelhantes. Funciona como uma irmandade, seguindo 12 passos e buscando o equilíbrio financeiro no intervalo de 24h. Não contam com suporte psicoterapêutico, mas na troca de experiências.

“Esses grupos começaram nos Estados Unidos e, hoje, estão espalhados no mundo inteiro”, explica Danziato. Afirma que ” tratar apenas os sintomas não é suficiente, assim como acontece nos casos de dependência química ou distúrbios alimentares”.

A finalidade desses grupos é fazer com que as vítimas da oneomania reaprendam a lidar com o dinheiro. No Brasil, eles existem no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, sendo o de Fortaleza o primeiro do Nordeste.

Integrante do grupo de Fortaleza, cujas reuniões são realizadas às sextas-feiras, às 19h, na Igreja dos Remédios (Benfica), diz que não é só o consumo exacerbado que pode levar uma pessoa ao descontrole financeiro. “Muitas não sabem lidar com o dinheiro”.

Integrante da irmandade do Rio de Janeiro, onde funcionam dois grupos, lamenta a sua situação atual: “Não tenho renda”. A irmandade congrega desde jovens a aposentados. (IS)

 

Fonte: //diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=941145