Quatro anos atrás, as dívidas costumavam tirar o sono de Gilmara Ota, 43, engenheira-chefe na área de projetos da HP do Brasil. “A gente nunca faz conta”, destaca.


Para quitar dívidas no cartão e no cheque especial, ela contratou três empréstimos pessoais e um empréstimo consignado. “Tudo isso também para a conta corrente não ficar no buraco”, lembra. A situação só começou a mudar, diz, quando ela assistiu a algumas palestras do programa de educação financeira desenvolvido pela HP. “Parei de gastar, começou a sobrar dinheiro, e eu usava essa ‘sobra’ para pagar mais de uma parcela dos empréstimos. Meu consumo pessoal foi cortado, como gastos com roupas, sapatos e joias.”

A engenheira conta que os empréstimos foram pagos e, atualmente, seu dinheiro é rigorosamente planejado. Ela garante um colchão financeiro para emergências. “Tenho bastante dinheiro na poupança porque preciso de liquidez. Consigo separar em torno de 30% da minha renda mensal. Em alguns meses, consigo subir para 40%.”

No caso de Gilmara, as dívidas não prejudicaram diretamente suas atividades no trabalho. “Ter dívidas era algo que me preocupava, mas não atrapalhava meu desempenho”, conta. Diferentemente da engenheira, há exemplos de pessoas que até pedem demissão para utilizar o dinheiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para pagar as dívidas, exemplifica Jurandir Macedo, consultor de finanças pessoais do Itaú Unibanco. Para ele, não são somente os débitos que causam o chamado estresse financeiro; os investimentos, também. “Imagine uma pessoa que não lide bem com a volatilidade. Isso leva a um desgaste”, afirma.

Contas em atraso, nome sujo e outras preocupações com o dinheiro provocam estresse, de acordo com alguns levantamentos. O estudo “Financial Wellness Survey”, da PricewaterhouseCoopers (PwC), realizado em 2013 com 1.600 pessoas nos Estados Unidos, mostrou que 52% dos empregados enfrentaram ao menos uma situação financeira estressante. Além disso, 23% dos entrevistados disseram que pensam nos problemas financeiros durante o expediente.

No Brasil, o principal levantamento sobre o assunto foi desenvolvido em 2008 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), com 135 funcionários da faculdade. “O cara estressado financeiramente é aquele que se atrasa, falta mais, pede mais abono sem justificativa”, diz o professor William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV. Os resultados mostraram que 10% dos funcionários tinham altíssimo estresse financeiro e 32% foram classificados com alto estresse. Para chegar aos percentuais, foram colhidas notas dadas pelos entrevistados de 0 (baixo estresse) a 10 (altíssimo estresse).

Segundo o economista Richard Rytenband, a principal saída para o problema é construir um projeto individual de riqueza – e isso deve ser estimulado pelas empresas. “É preciso ter esse apoio para aspirar a novas posições dentro da companhia e até criar novas fontes de renda”, destaca. De olho nisso, grandes empresas oferecem programas de educação e orientação financeira para seus profissionais. É o caso da HP, que tem desde 2010 um programa global focado em três pilares: saúde física, bem-estar financeiro e gerenciamento do estresse. “A gente começou a perceber que as dívidas afetavam o dia a dia do funcionário. Sem contar que tivemos alguns problemas de saúde em função do endividamento”, conta Claudia Giusti, gerente de remuneração e benefícios da HP do Brasil.

A empresa de tecnologia conta com um ciclo de palestras, presenciais ou online, realizadas duas vezes por ano para os 8 mil funcionários da companhia. “O assunto ‘Como administrar suas finanças pessoais’ é o tema de maior interesse entre as pessoas”, diz Claudia. O programa também orienta os funcionários a organizar o orçamento familiar, montar planos para a aposentadoria e começar a investir. Além das palestras, é possível pedir apoio por meio de um número de telefone. “A pessoa conversa com uma psicóloga para ver se o único problema é financeiro. Depois, a solicitação é encaminhada para um consultor financeiro”, explica.

Para ajudar profissionais que estão com diversos problemas, como aqueles ligados às finanças, algumas prestadoras de serviços, como a espanhola Albenture, oferecem um pacote de assistência às empresas. “As companhias contratam os serviços para ajudar os funcionários. Com base em nossa experiência, 15% de todas as consultas estão relacionadas a temas financeiros”, conta Alberto García Francos, sócio-fundador da empresa. “Os consultores orientam a montar o orçamento familiar e os psicólogos também estão à disposição para ajudar na questão da saúde financeira.” No Brasil, a empresa, trazida ao país há dois anos, atende 15 companhias, entre elas as seguradoras Allianz e Mapfre.

A DSOP, fundada pelo educador financeiro Reinaldo Domingos, também comanda programas de educação financeira em grandes empresas. “Fizemos um trabalho no Magazine Luiza, formando educadores financeiros [funcionários do RH da empresa] para atuar com os colaboradores”, conta Domingos. Todos os profissionais contratados recebem, segundo ele, palestras sobre como administrar as finanças e evitar dívidas. “No ano passado, foram mais de 3 mil funcionários que tiveram educação financeira na admissão.” Os educadores também ficam à disposição dos colaboradores para ajudar em questões financeiras, como contratação de empréstimos.

O apoio ao crédito é mais um benefício que as empresas começam a garantir aos funcionários. Atualmente, é comum que grandes companhias façam convênios com instituições financeiras para oferecer o crédito consignado aos profissionais. A modalidade, que possui taxas atrativas em relação ao empréstimo pessoal e, assim, pode servir como opção para troca de dívidas mais caras, vincula a contratação do crédito ao salário, com o débito feito diretamente na folha de pagamento.

Só para ter uma ideia, as taxas mensais variam de 1,45% até 6,83%, de acordo com dados do Banco Central referentes ao fim de janeiro. Os seis grandes bancos do varejo – Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco, HSBC Brasil e Santander -, por exemplo, apresentam taxas inferiores a 3% ao mês, sendo a menor cobrada pela Caixa, de 1,92%, e a maior encontrada no Itaú, de 2,70%. No crédito pessoal, as taxas mensais chegam a 10,54% e no cheque especial alcançam 22,01%.

Além dessa opção, há empresas que também oferecem um cartão de crédito com consignação em folha. Criado há dois anos pela Sorovale – empresa do grupo Sorocred -, o “Cartão Pague Certo” já é usado por 380 companhias. O produto não tem anuidade, juros ou encargos financeiros; uma taxa de R$ 4,99 é cobrada no primeiro uso do cartão. “É uma modalidade de crédito, com limite de até 30% do salário, que o funcionário pode usar na rede credenciada – da Rede e da Cielo “, explica Giovanni Santini, diretor da administradora de benefícios. O valor utilizado é descontado da folha de pagamento do salário seguinte, sendo que o prazo para o desconto pode ser estendido em até 40 dias. “É o que ajuda algumas pessoas a chegar ao fim do mês. Hoje, muita gente acaba usando cheque especial com esse objetivo e acaba pagando juros e encargos financeiros”, enfatiza.

Fonte://www.valor.com.br/financas/3436116/estresse-financeiro-sa#ixzz2tropYKyr