Nos 20 anos do Plano Real, o salário-mínimo cresceu 1.017%, um aumento muito superior à elevação no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), de 372,53% no período.


A mudança é surpreende, recobra José Silvestre, coordenador de relações sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

“Chegou um momento, no fim da década de 1980, em que o salário-mínimo era reajustado mensalmente”, conta. Se no mês anterior o INPC fosse de 50%, o salário daquele mês automaticamente viria com a alta de mesmo patamar, esclarece. “O problema é que naquele mês vigente a inflação continuava em elevação, o que fazia com que na segunda quinzena o valor pago já estivesse valendo a metade.”

Só com a estabilização a situação reverteu. Ainda assim, o salário-mínimo, no primeiro mês do Plano Real, ficava abaixo do preço da Cesta Básica, de acordo com apuração do Dieese. Em São Paulo, a cesta básica era R$ 67,40 em julho de 1994, enquanto o salário mínimo era de R$ 64,79.

Em Porto Alegre, a diferença era ainda mais acentuada, uma vez que a cesta básica daqui custava R$ 70,80. Um parâmetro que mostra a elevação do poder de compra e comparação com os índices atuais. Hoje, o salário-mínimo, de R$ 724,00, compra praticamente duas cestas básicas em São Paulo e em Porto Alegre (R$ 366,54 e R$ 366,00, respectivamente, em maio deste ano).

“O salário-mínimo desde sua implantação em julho de 1940 sempre teve um valor muito baixo. O período em que teve o melhor poder de compra foi no final dos anos 1950”, lembra Silvestre. Os ganhos só voltaram a se elevar em um período mais recente, já com o Plano Real em vigência. “A elevação ocorreu de forma mais evidente nos últimos 12 anos”, sustenta.

O que justifica esse movimento recente, estabelece Silvestre, foram decisões políticas que convergiram para o aumento dos salários. “Desde 2008 ficou acordado com as centrais sindicais que o salário-mínimo seria reajustado pelo INPC dos últimos 12 meses, mas antes disso, o governo já vinha concedendo reajustes bem acima da inflação.”

Com isso, a variação dos salários, quando comparada com a inflação, obteve ganho real de 136% nos últimos 20 anos. Esse fato diminuiu outro índice apurado pelo Dieese, o de salário-mínimo necessário. Baseado em preceitos constitucionais, o cálculo avalia qual é o rendimento mensal suficiente para arcar com custos de habitação, alimentação, saúde, transporte e educação.

“Em junho de 1994, o salário-mínimo necessário equivalia a nove salários-mínimos e hoje equivale a quatro”, detalha o coordenador do Dieese. No primeiro mês do Plano Real, quando o salário-mínimo valia R$ 64,79, o rendimento necessário totalizava R$ 590,33. Em maio deste ano, que tem como salário de referência R$ 724,00, o valor mensal necessário para gastos elementares é de R$ 3.079,31, segundo apuração do Dieese.

Silvestre não credita a alta dos salários somente à política salarial recente, embora ela tenho ampliado o efeito no rendimento da população. A estabilização econômica por si já reverteu melhorias. “A queda da inflação tem um efeito direto real sobre os preços, mas tem um efeito também sobre o salário e a renda das pessoas, refletindo no poder de compra.”

O economista e assessor da Fundação de Economia e Estatística (FEE-RS), Róber Iturriet Avilaque, reforça que a inflação sempre gera um cenário de perda, especialmente para a população com menor poder de proteção do capital. Já a contenção na alta dos preços consegue não só assegurar um cenário de maior previsibilidade de preços como aumenta a capacidade de consumo.

Somadas, a política econômica de estabilização e a política de compensação dos ganhos produziram um fenômeno recente consagrado como o boom do consumo no País. “Nesses últimos anos, por conta do crescimento da economia, houve também melhora no mercado de trabalho e queda na desigualdade”, contextualiza Silvestre.

Um índice que comprova a redução na desigualdade é o coeficiente de Gini, cuja variação vai de 0 (menor nível de desigualdade) a 1 (maior nível de desigualdade). De acordo com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o índice brasileiro passou de uma média de 0,60 entre 1975 e 2000 para 0,53 em 2012.

O consumo interno, por sua vez, manteve a economia brasileira aquecida durante o período mais crítico da recente crise financeira mundial. “Quando se olha o PIB, um dos principais componentes da riqueza gerada nos últimos anos foi o consumo das famílias”, argumenta Silvestre.

Educação financeira não acompanhou o processo de estabilização

Controlar a inflação foi uma conquista incontestável, comemora o presidente da DSOP Educação Financeira e da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Reinaldo Domingos. “Depois de cinco planos econômicos fracassados todos tínhamos receio de que o Plano Real também não fosse dar certo, mas consolidou e vai perdurar”, sacramenta.

Hoje, o contexto é diferente, esclarece, tornando possível o planejamento de longo prazo. “Temos uma moeda respeitada e houve o descolamento da política econômica da partidária. Independentemente do partido que venha assumir a presidência, não vamos perder essa conquista.”

O cenário para o consumo não poderia ser mais propício. Além da estabilidade, os rendimentos cresceram e a oferta de crédito seguiu a tendência. O impulso da nova classe média veio dessa condição, trazendo um revés não tão positivo, pondera Domingos. “O poder aquisitivo aumentou, e a classe C melhorou de condição muito em parte pelo crédito, mas há um preço que estamos pagando para ter um padrão melhor: juros elevados.”

Domingos destaca que o custo do dinheiro é elevado no Brasil. Por isso, a transição do período inflacionário para um momento que permite compras facilitadas parceladas deveria ter contado com apoio para a microeconomia. “É preciso evitar que as pessoas comprem e depois alavanquem suas dívidas sucessivamente, esse padrão tem limite.”

Muitas vezes esse limite é controlado pela própria política macroeconômica usando um recurso que Domingos cita como um recurso usado com maestria pelo governo: a taxa básica de juros (Selic). “Se o consumo aumentou muito e a inflação está subindo, o governo eleva a taxa Selic. Se os gastos estão contidos demais, baixa a Selic e estimula o consumo. Então, a inflação está regulada em cima desse aspecto.”

Fonte://www.sindifiscors.org.br/webforms/interna.aspx?secao_id=190&campo=11956