De acordo com o levantamento do SPC Brasil, seis em cada dez brasileiros encontram dificuldades para fazer o controle dos gastos

Da bala comprada na faculdade até as despesas mais caras. Foi anotando todos os gastos, quando ainda era estagiária, que a assistente social Tiana Paz conseguiu reduzir as despesas, realizar investimentos e iniciar, a quase 10 anos atrás, um plano de previdência privada. E a facilidade que ela tem para controlar as despesas infelizmente não é uma realidade da maioria. Segundo a pesquisa anual de “Educação Financeira” do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), seis em cada dez brasileiros encontram dificuldades para fazer o controle do orçamento e somente metade dos entrevistados (51%) conseguem fazer registro sistemático dos ganhos e gastos mensais.

Segundo o estudo, a maioria das pessoas registra os gastos anotando as despesas em um caderno ou agenda (32%). Outros 15% preferem manter uma planilha no computador e 4% utilizam aplicativos no celular. Entre os entrevistados, 27% afirmam fazer o controle das despesas de cabeça e 19% não realizam registro algum.

Para a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, o registro das despesas e receitas é essencial para entender como o dinheiro está sendo gasto e por quê ele não chega até o final do mês. “Se você começar a prestar atenção na sua vida financeira, passa a pensar melhor antes de gastar, o que facilita uma organização a curto prazo, para as despesas do dia a dia”, pontua. Já a longo prazo, o controle financeiro possibilita o planejamento para débitos futuros.

Na avaliação de Marcela, o controle dos ganhos e gastos se torna ainda mais necessário na crise. “Muita gente está passando pela situação de ter alguém na família que perdeu o emprego e precisa lidar com o orçamento mais restrito. É preciso ficar mais atento aos gastos e se programar melhor para não ficar no vermelho”.

Por outro lado, quem tem maior controle das despesas tem mais chances de manter uma reserva financeira, que pode ser aproveitada durante imprevistos. “Apesar de ganhar mais relevância no momento de crise, a organização financeira é importante para a vida toda. Não pode perder o controle quando a situação melhorar”, reforça a economista, que diz ainda que o impacto das contas é muito maior quando não há este controle.

De olho nas despesas

No caso de Tiana Paz, a organização do orçamento começou ainda em 2005 quando tudo que a assistente social recebia eram os R$ 200 do estágio. “Meu objetivo era conseguir ficar o mês todo com esse dinheiro, para que eu não precisasse pedir nada, ou o mínimo possível, de ajuda aos meus pais. Passei a registrar todas as despesas em um caderninho de caixa”, conta. Para não deixar nenhuma despesa de fora, a então estudante guardava as notas fiscais e registros de outros pagamentos na agenda, que eram passadas para o caderno no fim do dia.

Com o tempo, ela passou a usar uma planilha onde era possível classificar os gastos por tipo, como transporte e alimentação, por exemplo. “Eu conseguia ver melhor como estava gastando meu dinheiro e me ajudava a economizar”, conta a assistente social, que fez um plano de previdência privada aos 23 anos. Atualmente, ela consegue investir 10% do que ganha, além de guardar uma parte do salário todos os meses, como um fundo emergencial.

Planilha amiga

Assim como Tiana, o consultor hospitalar Mário Sergio Costa não abre mão da sua planilha de gastos. “Registro todas as despesas que tenho no mês e se eu ainda não tiver recebido o boleto, coloco um valor aproximado para já ir me programando”, afirma. No caso dele, que recebe salário quinzenalmente, o registro das despesas é extremamente necessário para não perder o controle das finanças e ficar no vermelho. “A planilha me ajuda a saber também quanto vou receber e a média dos meus gastos”, afirma.

Para começar a fazer um controle do orçamento, o educador financeiro Reinaldo Domingos recomenda que seja registrado durante 30 dias tudo o que a família gasta, desde o cafezinho até as despesas mais caras. “Existe um excesso de 30% a 50% em tudo o que consumimos, mas só quando colocamos no papel ou em uma planilha é possível pensar em quais são os extras que podem ser reduzidos”, pontua. “Acho importante que a família estabeleça metas, sonhos que quer realizar. Se eu explico para a minha família que estamos reduzindo o tempo do banho para economizar para uma viagem ou a troca do carro, a família toda é envolvida no processo da educação financeira”, completa.

Fonte: //www.correio24horas.com.br/single-economia/noticia/metade-dos-brasileiros-nao-registram-receita-e-despesas-diz-pesquisa/?cHash=6471dbc434651505e39b610e31e842f5